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No Brilhante, Tudo Brilha: Bacalhau, Prata e Nostalgia Portuguesa

Por Thalita, curadora e cofundadora da VOYA COLLECTIONS

No coração de Lisboa, uma refeição que tem gosto de tradição e estética de romance preto e branco.

Lisboa tem essa habilidade poética de misturar o antigo e o atual com uma naturalidade que beira o cinematográfico.
E o Brilhante, restaurante aninhado no Cais do Sodré, é talvez a mais perfeita tradução disso — um lugar onde o passado se serve à mesa com luz baixa, talheres pesados e memória líquida em forma de vinho tinto português.

Cheguei em uma noite fria e molhada, daquelas em que a cidade parece embalada em neblina e nostalgia.
A porta giratória já antecipa o charme: uma entrada que parece dar acesso não a um restaurante, mas a uma cena de filme francês ambientado em Lisboa.

Lá dentro, luz âmbar, veludos escuros, colunas robustas e espelhos dourados emoldurando silêncios elegantes.
A trilha sonora parecia calculada: nem alta, nem presente demais. Só o suficiente para acompanhar o tilintar de taças.
Sentei-me à mesa com uma sensação rara — a de que estava no lugar certo, à hora certa.

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✧ A COZINHA QUE NÃO GRITA

Foi só depois de alguns minutos que percebi: a cozinha estava ali.
Sim, ali mesmo, à nossa frente.
Aberta, visível, viva.

Mas não se ouvia nada.
Nenhum grito, nenhuma panela, nenhum tumulto.
Só gestos suaves, movimentos sincronizados, uma espécie de coreografia entre os chefs, como se todos dançassem no mesmo compasso silencioso.
Tive que perguntar à nossa waitress, quase em sussurro:

“Desculpe, essa é mesmo a cozinha de onde saem todos os pratos?”
Ela sorriu e respondeu com um aceno elegante.
Sim, era dali que tudo vinha. E vinha em silêncio.

Em um mundo onde se espera que cozinhas sejam caóticas, o Brilhante oferece o contrário:
disciplina que não oprime, harmonia que não se impõe.

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✧ UMA MESA QUE PARECE CENÁRIO

Acomodei-me num canto de veludo vinho profundo, cercada por colunas altas e espelhos que ampliavam a atmosfera.
A luz parecia ter sido escolhida para favorecer conversas íntimas e olhares demorados.
As mesas de madeira maciça, a louça impecável, os guardanapos engomados e dobrados com precisão japonesa — tudo ali convidava à permanência.

Pedi o bacalhau Brilhante, um clássico da casa que chegou com ares de desfile: perfeitamente montado, ladeado por batatas rústicas e ovo com gema fluida.
Cebolas doces, alho no ponto exato, e azeite que parecia vir de uma oliveira antiga.
A textura, o sal, a intenção — cada elemento dizia: “isso é Portugal.”

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✧ FICAMOS ATÉ O ÚLTIMO CLIENTE

O jantar foi longo.
Mas não cansativo.
Fomos ficando, conversando, observando, saboreando até o tempo se dissolver.

O salão foi esvaziando devagar, com a elegância de um teatro após o último ato.
E nós, ainda ali.
Até o último cliente se levantar.
Até o último gole de vinho.
Até o último brilho da luz refletida no prato já recolhido.

“Brilhante” não é apenas um nome. É um estado de espírito. Um elogio à elegância silenciosa de quem sabe o que faz — e faz com beleza.