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Le Train Bleu: Um Banquete em Movimento (Mesmo Parado)

Por Thalita, curadora e cofundadora da VOYA COLLECTIONS

No Gare de Lyon, o restaurante mais teatral de Paris oferece muito mais que pratos — oferece história em vitral.

Paris tem essa capacidade deliciosa de esconder grandiosidade nos lugares mais cotidianos.
E o Le Train Bleu é o exemplo mais escandalosamente encantador disso:
um restaurante de alta gastronomia francês que vive dentro de uma estação de trem.

Subi as escadas do Gare de Lyon quase em silêncio.
E de repente, a cidade mudou de tom.
Entrei em 1901.

O salão principal parece saído de uma cena de ópera.
A decoração é puro Second Empire: tetos pintados à mão, colunas ornamentadas, espelhos dourados, lustres imensos e janelas que deixam a luz entrar como se fossem cortinas.
Mas o que impressiona não é o excesso — é a harmonia.
Tudo ali tem propósito, presença, elegância.

UM RESTAURANTE QUE ENCENA O PRÓPRIO TEMPO

Fui recebida como quem chega a uma peça já em andamento.
Abrigada com um gesto gentil, acomodada em uma poltrona que mais parecia de teatro.
O menu? Um programa.
O maître? Um narrador.

Pedi o gigot d’agneau rôti, clássico da casa, servido com perfeição quase cerimonial.
A carne rosada, o molho profundo, o aroma que anunciava um prato com história.
Cada detalhe me lembrava que estava participando de algo que era mais que uma refeição — era uma cena cuidadosamente composta.

Entre uma taça de vinho e outra, observei casais, viajantes, famílias.
Uns indo. Outros chegando.
E todos, por instantes, parados no tempo.

PARADO, MAS EM MOVIMENTO

O mais curioso do Le Train Bleu é que, mesmo estando imóvel, ele carrega uma energia de viagem.
As malas na estação abaixo, os trens chegando e partindo, os sons abafados dos alto-falantes ecoando na estrutura — tudo parece dizer:

“Você está prestes a partir, mesmo que não vá a lugar nenhum.”

E isso é, para mim, a magia do lugar:
o deslocamento interno que ele provoca.
Sentar ali é atravessar décadas.
É fazer uma viagem sem se mover.

UM FIM DE NOITE COM CHEIRO DE MANTEIGA

Fechei o jantar com o baba au rhum, servido com chantilly fresco e uma leveza absurda para um doce tão tradicional.
E enquanto finalizava o café, reparei: a cidade já era outra.
O salão seguia, brilhando.
O trem — mesmo parado — seguia em movimento.

“Le Train Bleu não leva você para longe. Ele leva você para dentro.”