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Le Procope: Onde Napoleão Deixou o Chapéu — e Eu, a Pressa

Por Thalita, curadora e cofundadora da VOYA COLLECTIONS

Almoçar no restaurante mais antigo de Paris é um ritual entre passado e garfadas que carregam séculos.

Há lugares que você não visita — você reverencia.
O Le Procope, fundado em 1686, é um deles.
Mais do que um restaurante, é uma instituição.
Mais do que uma refeição, é uma cena do tempo.

Passei pela discreta Rue de l’Ancienne Comédie em uma tarde nublada de outono.
A fachada azul-marinho, quase apagada pelo tempo, abriga séculos de conversas, ideias e talheres cruzados entre filósofos, escritores, políticos e amantes.

Voltaire, Rousseau, Diderot, Balzac.
Todos ali.
E — dizem — Napoleão também, que um dia, sem poder pagar, deixou seu chapéu como penhor.
O chapéu ainda está lá, emoldurado.
E quando o vi, sorri.
Porque eu também deixaria algo meu ali, se pudesse.

✧ UM INTERIOR QUE RESPIRA LITERATURA

O interior do Le Procope é pura teatralidade barroca.
Lustres pesados, tapeçarias antigas, espelhos com molduras douradas que refletem o tempo em tons âmbar.
Paredes cobertas de frases, quadros, documentos, manuscritos.
Tudo parece cuidadosamente envelhecido, como um livro raro.

Fui levada até uma mesa próxima à janela — com toalhas alvíssimas e talheres de prata.
O som ambiente era discreto: vozes francesas baixas, taças brindando devagar, passos de garçon impecavelmente cronometrados.

Pedi o Coq au Vin, prato clássico da casa.
E quando chegou, entendi por que atravessou séculos: textura perfeita, molho profundo, alma francesa.
Cada garfada parecia um parágrafo.
Cada gole de vinho tinto, uma vírgula.

✧ O TEMPO SE SENTA COM VOCÊ

No Le Procope, não se come rápido.
Nem se fala alto.
Ali, tudo pede pausa.
Inclusive o garçom, que parecia surgir na exata hora em que o pensamento pedia companhia líquida.

E eu, que costumo observar os detalhes como quem lê entrelinhas, fiquei fascinada pela coreografia do lugar: o modo como a jarra é colocada, o cuidado com os pratos, o silêncio respeitoso diante da história.
É como se todos ali — até quem serve — soubessem que estão fazendo parte de algo maior do que um simples almoço.

“Le Procope é o tipo de restaurante que te olha nos olhos e diz: aqui, você desacelera.”

✧ EU DEIXEI A PRESSA

No final, não deixei chapéu.
Mas deixei a pressa.
E talvez, de forma simbólica, tenha deixado também um pedaço da minha alma ali — entre o linho, o vinho e o tempo.Saí andando devagar, como quem não quer quebrar o encanto.
E Paris, ao me receber de volta, parecia ainda mais bonita.